domingo, 17 de dezembro de 2017

errado demais para estar certo!


ele não sabia que era possível se arrepender por ter feito a coisa certa!

é um puta clichê dizer que só se arrepende do que não fez, parece bobagem, coisa que se diz da boca pra fora, mas acontece. a gente se arrepende de muita coisa que já fez também. normal desejar que o tempo volte pra tomar outra decisão, mesmo sabendo que, voltando o tempo, não saberíamos o que sabemos agora, faríamos a mesma merda, aposto.

mas ele não sabia que se arrependeria de ter feito a coisa certa. tava acostumado a perder, a escolher o que achava certo, tomar no cu, mas se confortar por não ter traído a si mesmo, como diz a música do yuka: "saber perder alguma coisa pra sobreviver!". se era mesmo a coisa certa, assumia o prejuízo e seguia, já havia perdido outras vezes e seguia sem maiores ressentimentos, dessa vez não.

ele não podia saber o que tinha dado errado, o que tinha saído do controle. parece que com a idade muita coisa se transformava mesmo, apesar de não mudar porra nenhuma. sempre achou que estivesse no controle e que se conhecesse muito bem, agora tudo estava movediço. já fazia algum tempo que tudo estava movediço, mas seguia convicto de que fazer o certo era a melhor saída, era o jeito mais fácil de continuar respirando, dessa vez errou feio, errou rude.

a crise não era saber se havia ou não decidido a coisa certa, ele sabia, era o certo. ele tava fudido é porque, pela primeira vez, ter feito a coisa certa (certa o quê, carái?) gerou arrependimento, vontade de voltar, desligar a porra da razão. teria se arrependido se tivesse feito o outro caminho? talvez. mas nem fudendo seria um arrependimento maior do que esse de agora. o gosto amargo na boca de uma vontade que não passa, de uma vontade não realizada. 

"foi a coisa certa" repetia para si mesmo, tentando se convencer e se consolar. "você é muito burro", repetia para si mesmo, tentando se punir e se consertar!

às vezes, fazer a coisa certa é a coisa mais errada que alguém pode fazer! mas cada um faz o que pode! ele sabia disso, sabia que se havia feito, é porque aquilo ali era ele, aquele exato desequilíbrio entre força e fraqueza que cada um tenta inutilmente administrar. 

arrependimento é gosto ruim na boca. gosto que pra sair demora!

"se soubesse antes o que sei agora... erraria tudo exatamente igual!"
(pq sou burro)

domingo, 3 de dezembro de 2017

Amém!

hoje terminei de ler um livro sobre deuses.

para quem por muito tempo só lia a bíblia, que é basicamente um livro sobre um deus só (na verdade tem outros, mas no final tudo virou um, apenas), um livro sobre muitos deuses é, de fato, muito interessante, só por isso já valeria a pena, tinha muitos deuses, deus pra caralho, além disso o livro é bom, bom de ler.

o livro falava de vários deuses e de suas origens, e de seus vários nomes, e de seus truques e falcatruas para continuarem deuses, para não serem esquecidos e morrerem, e de suas mortes. a morte de um deus é algo tão triste e inexplicável quanto a morte de um ser humano, mas bem mais fácil de entender. 

existem muitos deuses nos planetas, em todos eles, deuses velhos e deuses novos, bons e maus e piores ainda, e deuses loucos e deuses sãos, deuses pequenos e deuses enormes e outros maiores ainda, à imagem semelhança dos humanos (e dos extra-terrestres, imagino eu).

há um deus pra cada coisa, pra várias coisas, há um deus pra tudo, pro nada, e tenho dúvida absoluta que pro pós-nada também deve haver. você precisando de um deus sempre haverá um pra sua demanda, e mesmo que você não precise, também haverá, mas todo mundo precisa, e precisando: inventa um, ou mais de um. qual o nome do deus dos ateus? e do deus dos deuses?

todo mundo tem um deus, todo mundo rende culto a um deus, (no mínimo 1, mas geralmente é muito mais que 1), assim como todo mundo tem sonhos e smartphones. o deus smartphone é um dos deuses mais jovens, e seu público de adoradores é vasto e não para de crescer, ele é um deus na flor da idade, quem não tem esse deus ainda é alguém mais conservador em relação a deuses. o deus celular geralmente está sempre perto de você, mas às vezes descarrega, ou quebra, ou é roubado e você tem que se virar pra comprar outro, pra não ficar sem deus. (não comprem deuses roubados)

enfim, todo mundo tem seu deus, todo mundo acredita em alguma coisa, mesmo que seja no fato de que tudo isso é invenção, acreditar nisso é acreditar, e se você acredita e algo é acreditado, pimba, Habemus Teo. no que você acredita? qual o nome do teu deus? ele é velho, novo? já morreu? não precisa responder, não é da minha conta. 

o nome do livro é "deuses americanos", do neil gaiman. eu não sei qual o deus dele, mas ele achou um monte de deus pra botar no livro e ainda deve ter ficado um monte de deus fora da parada, vários que não quiseram aparecer, ou ceder seus direitos, ou que já morreram há tanto tempo que não se sabia mais onde achá-los ou o que dizer sobre eles.




                                               Iê, viva meu deus. Iê viva meu deus, camará!